ESTIMULAÇÃO MAGNÉTICA NA AFASIA
1.- INTRODUÇÃO
Depois de sofrer um icto, já desde a fase aguda pós-lesional, gera-se uma reorganização das redes neuronais que não foram afetadas, de modo que os neurónios saudáveis podem “aprender” funções dos neurónios danificadas e substituir esses, dando lugar à neuroplasticidade ou plasticidade neuronal. A neuroplasticidad ou plasticidade neuronal é a facultade do tecido nervoso para se auto-reorganizar.
Esse fenómeno (Neuroplasticidade) está condicionado por fatores genéticos, idade do paciente, grau de dependência prévio ao evento lesivo, a precocidade com que se inicie a neurorreabilitação, apoio sócio familiar, complicações intercorrentes, bem como pela localização, intensidade, natureza e extensão dessa lesão cerebral.
A maioria dos sintomas depois do acidente cerebrovascular não se devem apenas à lesão nela própria, mas à hiperatividade registada no hemisfério intacto para o lesionado, que fica inibido.
Por outro lado, a EMT (A Estimulação Magnética Transcraniana) acelera os mecanismos de neuroplasticidade, reorganizando com celeridade as conexões cerebrais, isso comporta uma maior eficiência das redes neuronais da área afetada.
A EMT repetitiva (EMTr) de baixa frequência (≤ 1 Hz) aplicada sobre o hemisfério saudável diminui a ativação cortical difusa, posterior a um icto, das áreas motoras primária e secundária de ambos os hemisférios cerebrais, ativando a área cortical lesionada que tinha sido inibida e favorecendo a sua excitabilidade e recuperação motora. Contudo, a EMTr de baixa frequência, frequências (≥ 5 Hz), incrementa a excitabilidade cortical, e pode ser aplicada para produzir uma estimulação neuronal do córtex cerebral do hemisfério lesionado. Ou seja, a EMT acelera os mecanismos de neuroplasticidade reorganizando com celeridade as conexões cerebrais, isso comporta uma maior eficiência das redes neuronais da área afetada.

A EMT passou a ser considerada uma realidade terapêutica em doenças neurodegenerativas, psiquiátricas, neurológicas e de outras especialidades clínicas, uma vez que confere efeitos neuroprotetores, incidindo favoravelmente na modulação da neuroplasticidade, ajudando desta forma o cérebro na sua capacidade para renovar e/ou reconectar circuitos neuronais e, com isso, adquirir novas habilidades e destrezas.
A EMT no icto pode ser usada também como técnica de terapia regenerativa.
Relativamente aos seus efeitos terapêuticos no paciente com icto, a EMT pode ser focalizada para a melhoria da neuroplasticidade, e com isso para cada um dos sintomas associados ao icto (recuperação motora, transtornos da linguagem e a deglutição, depressão e dificuldades percetivas e cognitivas)
A base desta terapia neurorreabilitadora é fundamentada em que o cérebro é uma entidade dinâmica adaptável às alterações ambientais quer internas como externas.
A EMT é uma técnica que nos permite atuar de forma positiva sobre estas alterações neuronais de um modo seguro e não invasivo, sempre que seja implementada por uma equipa médica com experiência: A intensidade do pulso eletromagnético na aplicação da EMT é uma medida individual e específica para cada paciente, portanto devem ser seguidos os guias e os protocolos, e existe variabilidade a depender da Equipa Médica e terapêutica que o aplique.

2. – O QUE É A AFASIA?
A afasia consiste num transtorno na capacidade de expressão e/ou compreensão da linguagem, geralmente a raiz de uma lesão na região perisilviana do hemisfério cerebral esquerdo.
Em resumo, a afasia é uma alteração adquirida da capacidade para emitir e/ou compreender a linguagem, tanto oral e escrita, como gestual.
A linguagem é o veículo do pensamento. As afasias envolvem quase sempre transtornos das outras funções da linguagem escrita (agrafia) e da leitura (alexia).
A clínica dos pacientes afásicos, dependerá da localização e o tamanho da lesão cerebral, bem como da capacidade cerebral dos neurónios saudáveis para assumirem as funções dos lesionados (o que se denomina plasticidade neuronal ou neuroplasticidade).
Em ocasiões, depois do evento lesivo, as alterações organizativas da atividade cerebral interneuronal da zona afetada e das regiões saudáveis circundantes, permitem recuperar a capacidade da linguagem. Por isso, quando os doentes que sofrem afasia superam o período agudo de convalescença e se encontram estabilizados, devem receber um tratamento ortofonista como ajuda para alcançar esse objetivo.
A etiologia da afasia é variada: um icto ou enfarte cerebral (é a causa mais frequente), um traumatismo cranioencefálico, uma infeção do encéfalo, uma neoplasia cerebral, as demências, etc…
Os hemisférios cerebrais direito e esquerdo têm funções diferentes relativamente à linguagem, o esquerdo está mais especializado nos aspetos léxico e sintático, e o direito nos aspetos prosódicos ou “emocionais” da linguagem.
3- O QUE É A ESTIMULAÇÃO MAGNÉTICA TRANSCRANIANA (EMT)?

A EMT é uma forma não invasiva de estimulação do córtex cerebral, e representa uma ferramenta técnica que alarga o leque de possibilidades de estudo e investigação no campo das neurociências, bem como no tratamento de diversas doenças e transtornos neuropsiquiátricos. Permite a estimulação segura, indolor e incruenta do tecido nervoso (córtex cerebral, medula espinal, vias motoras centrais e nervos periféricos), bem como regular de forma controlada a atividade cerebral.
Fundamentos:
A EMT é baseada no princípio de indução eletromagnética, descoberto por Michael Faraday em 1831. Uma corrente elétrica passa através de uma bobina de fio de cobre encapsulada numa carcaça de plástico, situada sobre a cabeça do paciente. No momento em que um pulso de corrente passa através da bobina de estimulação, gera-se um campo magnético que passa através do couro cabeludo e a calota craniana sem se atenuar. Este campo magnético variável no tempo induz uma corrente elétrica no tecido neuronal do cérebro, cujo volume depende da forma, tamanho, tipo e orientação da bobina, a força (intensidade) do campo magnético e a frequência e a duração dos pulsos magnéticos produzidos. Deste modo, a EMT poderia considerar-se como uma forma de estimulação elétrica não invasiva, sem elétrodos, por indução eletromagnética.

Esta corrente elétrica atua sobre as células cerebrais (neurónios) inibindo ou estimulando os seus efeitos.
Da perspetiva terapêutica, existem uma grande quantidade de estudos que demonstram que a Estimulação Magnética Transcraniana é efetiva e ainda pode ser considerada segura, sempre que se utilizar por uma equipa médica qualificada e se cumpram os guias de segurança.
4- APLICAÇÕES TERAPÊUTICAS E USO ATUAL DA EMT:
A EMT, por ser uma técnica não invasiva, bem tolerada e com escassas contraindicações, tornou-se numa terapia “de ponta”, de vanguarda, em diversos transtornos tanto psiquiátricos como neurológicos (especialmente em pacientes com patologia cerebrovascular), e está aprovada pela Food and Drug Administration dos Estados Unidos como tratamento de escolha quando o paciente apresentar uma depressão maior refratária ao tratamento farmacológico convencional.

As suas aplicações são múltiplas e cada vez mais amplas, devido aos trabalhos de investigação que estão a surgir todos os anos:
Afasia: A afasia, nas suas diferentes modalidades, é uma consequência comum do icto, sobretudo do hemisfério esquerdo, caracterizada por transtornos na fala, a compreensão, a leitura e a escritura. O tratamento mediante EMT resulta mais eficaz, com base na literatura científica publicada, em pacientes com afasia motora (não fluente) ou naquelas afasias globais de predomínio motor.
Vários trabalhos contribuíram a corroborar que a estimulação por ela própria melhora os transtornos da linguagem, quer na identificação de imagens quer na linguagem espontânea, e nos testes de repetição, nominação e compreensão.
Disfagia orofaríngea: A pesar da sua incidencia ser de 50% nos pacientes com icto, a disfagia orofaríngea encontra-se infraestimada e infradiagnosticada, constituindo uma causa de desnutrição e de pneumonia broncoaspirativa, que incrementa a taxa de mortalidade nestes pacientes (20-30% das mortes pós-icto).
A disfagia orofaríngea produz dois tipos de complicações: alterações na eficácia da deglutição (o que causa malnutrição ou desidratação) e insegurança ao deglutir (que pode chegar a produzir pneumonia por aspiração). A disfagia após um icto é consequência do dano produzido no córtex motor dominante.

5.- ESQUEMA DE TRATAMINTO
Antes de iniciar a primeira sessão de EMTR, realiza-se uma visita médica para comprovar que o paciente não apresenta nenhuma contraindicação e que o mesmo está em condições de colaborar no tratamento. Também é realizada uma avaliação ortofonista antes e depois do tratamento, bem como visitas de acompanhamento posteriores, para avaliar a resposta a este tipo de terapia neurorreabilitadora combinada.
PLAN DE TRATAMENTO AFASIA: O protocolo de tratamento da afasia que se realiza na Clínica San Vicente está baseado no protocolo desenvolvido pelo Berenson-Allen Center for Noninvasive Brain Stimulation (CNBS) at Beth Israel Deaconess Medical Center and Harvard Medical School, o qual tem como base de sustentação científica os diferentes trabalhos de investigação levados a cabo fundamentalmente por Margaret Naeser e os seus colaboradores.
Consiste em 10 sessões de EMTr (uma sessão diária durante os 10 dias laboráveis de duas semanas) de 20 minutos seguidas de tratamento ortofonista intensivo (2 horas diárias aproximadamente).
PLAN DE TRATAMENTO DISFAGIA: A aplicação da estimulação realiza-se 10 minutos por dia durante 2 semanas, sobre o córtex motor contralesional, tendo-se demonstrado a melhoria da deglutição e a diminuição no risco de aspiração após o tratamento.
6.- EFEITOS SECUNDÁRIOS
A EMT é uma técnica segura sempre que se sigam as orientações de segurança. Alguns pacientes submetidos a esta estimulação cortical podem experimentar efeitos secundários após a sua aplicação, que possam ser considerados como leves e passageiros, tal como dores a nível cefálico ou cervical; e que na infrequente situação de persistência, se mitigam mediante a ingestão de analgésicos comuns.
Por outro lado, o risco de sofrer crises epiléticas durante a EMT é muito baixo e não foi demonstrado que a EMT incremente o risco de desenvolver crises epiléticas, em pacientes epiléticos controlados, uma vez finalizada a sessão de estimulação.
7.- CONTRAINDICAÇÕES
As principais contraindicações relativas que a EMT tem são: mulheres em período de gestação e crianças menores de seis anos.
Relativamente às contraindicações absolutas encontram-se as seguintes: pacientes com marca-passos, elétrodos de estimulação cerebral profunda, dispositivos eletrónicos corporais (bombas de infusão medicamentosa) ou elementos metálicos intracranianos (placas metálicas, arames, parafusos, válvulas cardíacas ou de derivação ventrículo-peritoneal, implantes cocleares, etc.). Também não se deve realizar o tratamento em pacientes que apresentem uma epilepsia não controlada. Prévio início do tratamento, um médico avaliará cada caso de forma individualizada, para descartar a presença de alguma contraindicação.

8.- CONCLUSÕES
- A EMT demonstrou ser uma aliada técnica de vanguarda, segura e efetiva, para tratar os défices que podem originar-se depois de sofrer um icto, bem como resultar, em termos de segurança, inócua para o paciente. Igualmente, a EMT resultou especialmente valiosa para ajudar a promover a regeneração cerebral pelo mecanismo de neuroplasticidade.
- Os pulsos eletromagnéticos excitatórios e inibitórios aplicados no hemisfério cerebral ipsilateral ou contralateral à lesão, bem como a nível da área transcalosa para modular a comunicação entre ambos os hemisférios cerebrais (segundo o efeito que se deseje produzir), brindam-nos a possibilidade de otimizar a atividade cerebral funcional, ao induzir mudanças na conectividade interhemisférica, bem como conseguir uma recuperação da área cerebral danificada num tempo menor.
- Os diferentes estudos levados a cabo no campo da EMT, constataram a melhoria dos transtornos motores, a afasia, a espasticidade, a disfagia orofaríngea e as dificuldades percetivas e cognitivas que aparecem nos pacientes com um icto.

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